Não quero um relacionamento.
Estava lendo uma página do Aroaceiros, um site sobre representatividade aroace (quando se é arromântique e assexual). A página era: “Conferência Assexual 2020: Ace e Etnicidade”. Mais especificamente, estava em uma parte sobre expectativas familiares acerca de casamento, filhos, etc.
Comecei a pensar sobre como minha família – mais os outros do que minha mãe, mas ela não escapa – parecem nutrir o pensamento de que, um dia, vou estar em um relacionamento. Já disse diversas vezes que não pretendo me casar, que para mim é besteira, obviamente não gerando nenhum resultado positivo deles. Mas mesmo que alguns entendam – como minha mãe – que eu de fato não vou me casar, e que está tudo bem não querer um casamento, parece que todos ainda esperam que eu, ao menos, namore um dia.
A reflexão fluiu para como eu realmente não me vejo em nenhum tipo de relacionamento amoroso ou sexual. Rótulos como “ficante”, “namorade”, “marido”, entre outros, realmente não me agradam. Não é só pelo rótulo: eu realmente não me vejo em um relacionamento amoroso, e muito menos sexual.
Quer dizer, eu nunca me apaixonei até hoje. Nunca morri de amores por alguém, qual fosse o gênero, nunca me imaginei em um relacionamento, recebendo ou dando flores e chocolates, e qualquer baboseira do tipo. E atração sexual é mais complicado ainda. Embora já tenha beijado quatro pessoas, não senti nada com nenhuma delas. O que eu deveria sentir?
De forma geral, sequer penso em relacionamentos. Se minha família, em um daqueles almoços de domingo, virasse para mim, os cinco tios e tias, minha avó e mãe, e perguntassem: “Quando você pretende namorar?”, eu responderia na lata: “Nunca”. “Você não tem interesse em namorar?” Nem um pingo.
Um namoro, ou qualquer outro tipo de relacionamento, não é sobre a idealização dele, e sim sobre o que se sente. O relacionamento surge a partir dos sentimentos, sejam afetivos ou puramente carnais. O relacionamento não tem um passo-a-passo, regras pré-definidas, um funcionamento já planejado. Ele flui de acordo com a interação das pessoas envolvidas. Se você terminar com alguém hoje e começar outro relacionamento com alguém amanhã, não serão relacionamentos iguais, porque a interação será diferente.
(Esse último parágrafo está cheio de informações óbvias, eu sei, mas é para a linha de raciocínio funcionar devidamente, e também um rascunho de como eu responderia minha família quanto a essa coisa de “querer um namoro”.)
Sendo assim, não tenho como desejar um namoro, porque ele pode e vai se desenvolver de formas completamente diferentes das que eu imaginaria e desejaria.
Também, um relacionamento surge de sentimentos. Não senti nada por ninguém até hoje, e duvido muito que vá sentir em algum momento, então como poderia estar em um relacionamento sem sentir nada anteriormente?
Acho, até, que um relacionamento me atrapalharia. No momento, tenho muitos compromissos, em quase todos os dias da semana (agora não tenho terapia na sexta, e estou arranjando algo para fazer na quinta, mas chegarei lá). Eu gosto de ter tantos compromissos. Gosto de distribuir meu tempo em atividades que me interessam. Pintar, ler, escrever, estudar, exercitar, cantar, tocar, simplesmente ficar parado pensando e ouvindo música… Em que momento eu encaixaria um relacionamento amoroso aqui?
Mesmo pensando adiante, em um ambiente universitário ou de trabalho… Eu tenho tantos projetos. Objetivos. Uma faculdade de artes visuais, um site punk que deverá ser alimentado com frequência, mais capacitações acadêmicas, mais estudos, livros, quadros, desenhos, estudos, livros e… Deu para entender? Estarei muito ocupado para pensar em namoro.
Também não consigo pensar em alguma razão para ter um namoro (ainda mais levando em conta que é improvável que eu sinta algum interesse romântico por alguém). O que eu ganho com isso? Afeto? Amigos e família já servem para isso. Presentes? Amigos e família já servem para isso. Beijos? Não que eu queira, mas amigos também podem servir para isso. Realmente não vejo nenhuma vantagem, a não ser que, claro, você sinta uma necessidade de estar ao lado da pessoa o tempo todo ao ponto de querer passar boa parte do tempo com ela e de uma forma que você rotularia como romântica, e aí sim você teria uma vantagem de ter um namoro com aquela pessoa.
Ah, pets também cobrem minha carência emocional, eu pretendo ter dois gatos e um cachorro, então… Mais coisas que não permitem a entrada de um namoro em minha rotina.
Em resumo, eu realmente não me vejo e não tenho o menor interesse em um namoro, muito menos em casamento, e é isso.
Também há de ser levado em conta que as expectativas de minha família acerca de relacionamentos são extremamente atreladas a padrões tradicionais, extremamente heteronormativas e extremamente monogâmicas. Eu não sou o maior fã de tradicionalismo e padrões sociais, sabe… (puro eufemismo nessa frase.)
A verdade é que chego a odiar quando nutrem a expectativa de que eu vá me relacionar romanticamente ou sexualmente um dia, porque eu simplesmente não quero, não tenho o menor interesse, e gostaria que isso fosse respeitado.
Sinto asco quando dizem, com a maior tranquilidade e como se fosse um fato, que vou sentir atração romântica ou sexual um dia. Isso cabe apenas a mim, a mais ninguém, e não admito que se achem no direito de dizer como minha vida vai seguir.
São meus sentimentos. E se eu digo que não os sinto – as atrações romântica e sexual – é porque não sinto.
E ponto.
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