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Projeto Analógico

  Projeto Analógico A vida analógica Eu, como muitas outras pessoas, sei o quanto essa droga que chamamos de celular pode nos tirar. A espontaneidade, a paz, a originalidade e, principalmente, o tempo. Muito engraçado saber que essa droga foi criada para poupar tempo, quer dizer, ter dezenas — centenas, e agora o quê, milhares? Milhões? — de funcionalidades em um único aparelho deveria nos poupar muito tempo. Sabemos, porém, que essa bomba rouba mais do que pretendia poupar. Diante dessa constatação, que não é nenhum pouco nova, algumas pessoas têm embarcado em uma certa jornada, e em tamanha escala que alguns nomes do mercado da informação têm chamado — de forma sensacionalista, na minha opinião — de “renascimento analógico”. E a jornada é exatamente esta: reduzir ao máximo o uso de aparelhos digitais, principalmente o celular, e substituí-los por invenções analógicas, em especial as dos anos 70, 80 e 90. A prática (ou estilo de vida, embora o termo me seja enjoativo) é deveras i...

O Mais Terrível Sonho

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Dormia.    E dormia profundam ente, devido à insistência de sempre, sempre, querer ouvir as músicas assim que eram lançadas, à meia-noite. Mesmo que não pudesse manter a completa atenção à melodia, às nuances de timbres, instrumentos, compassos e tons; mesmo assim, insistia.    E à sua insistência deveu-se o sono profundo que desfrutava, depois de muitas noites mal-dormidas para conseguir a incrível proeza de ler um livro por dia.    Já era quase manhã, aquele momento em que um pequeno véu cinza-azulado ameaça a escuridão completa da madrugada. Aquele momento em que, se fosse em uma fazenda, um galo já estaria cantando, apenas para aquecer, antes dos verdadeiros trabalhos.    Em meio ao silêncio total d esse momento de paz, seu inconsciente pôs-se ao prazer da tortura.    Inesperadamente, pois raramente acontecia, estava sonhando.    Nunca sonhava. Não sonhos coesos, que revelassem algum segredo de sua psiquê; ao contrário, ape...

Descasca.

esses toques frios soam como agulhas em minha pele  em meus ouvidos nas profundezas de minha razão alcançam todas as camadas e divisões e deixam seus rastros de muitos modos a paralisia de meu estômago a intrusão de ideias até chegar à clinomania  tudo isso descortica e passam até mesmo por minhas dicotomias da leitura ao canto da melodia ao rabisco do brilhate ao mofado até chegar à não-verbalidade tudo isso descama por fim penetram o que resta umedecem oxidam deixam frágil os vínculos o reflexo o límbico e entregam cesuras o punho fechado a unha na carne o auto-asco ou apenas essa coisa porosa e persistente o nada até chegar à alexitimia tudo  isso DESCASCA.

Somos

Os seus olhos castanhos me acalmam, sempre.  Os cabelos altamente cacheados e sempre volumosos, também.  E são sempre seus lábios que me dirigem as melhores palavras que eu poderia ouvir.  O modo como me acaricia ou me abraça, até como me olha, é terapêutico. Não posso dizer que dependo de você.  Não dependo, nem de forma emocional, e muito menos da forma mais comum: a romântica.  Até porque, somos zucchini, e não amantes. Nos amamos de forma que não seja uma amizade, e de forma que não seja um romance.  Amizades não são complexas como nós, e romances não são simples como nós. Apenas somos. É isso que aprecio em nós. Eu, apenas sou. Não homem, não mulher, não-gênero. Não do punk, não do clássico, não-de-um-só.  Você, apenas é. Não impressionista, não surrealista, não classicista. Não sempre, não nunca, não-contabilizado. Em essência e à parte, somos. Mas em uníssono, somos também. Não mais, não menos, não melhor e não pior. Não artistas, não insensívei...

De dia, sorvete; de noite, sopa.

"De dia tomo sorvete  de noite tomo sopa" Segundo meu psicólogo, doutor Vinícius, esta é uma frase de Paulo Lemisnki, o qual ele diz não gostar muito.    Começou a sessão retrasada (dia 18, sexta-feira) com a pergunta: "Gosta de Paulo Leminski?" Não, não sou um grande fã, assim como ele.     "Há uma obra dele, falando sobre Curitiba: 'de dia tomo sorvete, de noite tomo sopa'. Semana passada você veio aqui de sobretudo, e agora está de bermuda", e sorriu.    De fato, o clima de Curitiba é, no mínimo, estranho. Até a última quinta-feira estava um calor de até 30°C, e agora somos recebidos com um frio de 13°C e chuva.    Num geral, converso mais com meu terapeuta sobre obras literárias, arte e política do que sobre meus problemas mentais. Prendo-o no meu papo cult  até onde conseguir. Não adianta muito, no final ele sempre me faz voltar ao assunto "como você está?", ou faz uma metáfora relacionando o papo cult  com minha saúde men...

Surpresa?

   - Surpresa!     É o que todos gritam, estourando confetes e acendendo as luzes, quando a aniversariante, de olhos arregalados e boca entreaberta, entra pela porta principal.    Seguem-se os abraços, beijos e bonificações. A luz ambiente torna perfeitamente possível enxergar, mesmo deste canto mais isolado da sala, as gordas gotas d'água a descer pelo rosto da aniversariante, tornando brilhante a pele cor de ébano.    Todos se apressam para distribuir os doces, cortar o bolo e tirar fotos. Todos os acontecimentos ritualísticos de qualquer aniversário.    Não consigo entender. Quer dizer, num geral, todos lembramos perfeitamente de nossos aniversários. Sabemos quando a data está próxima, mesmo quando não temos nenhuma intenção de comemorar. E, num geral, nossos parentes também sabem e aguardam a data, esperando, talvez, que você dê uma festa onde poderão se deliciar das mais diferentes categorias de comida.    A pergunta...

Phantasmagoria

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Esta obra recebe total autoria e crédito a seu autor, Lewis Carroll, ou Charles Lutwige Dogson. Autor de muitas obras, sendo as mais famosas Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho.    Todo o poema é retirado da edição da editora Darkside, contendo, portanto, sua tradução e adaptação.   Trouxe aqui esta obra por acreditar ser de ótima qualidade e obter ótimo humor. Espero que gostem.   Phantasmagoria CANTO I ÀS ESCURAS           Era inverno, e às nove e meia,              Com frio, cansado, cheguei em casa,          Já bem depois da hora da ceia;          Mas no escritório uma taça cheia,              Charuto e um prato me esperavam.         ...