Projeto Analógico

 Projeto Analógico

A vida analógica

Eu, como muitas outras pessoas, sei o quanto essa droga que chamamos de celular pode nos tirar. A espontaneidade, a paz, a originalidade e, principalmente, o tempo. Muito engraçado saber que essa droga foi criada para poupar tempo, quer dizer, ter dezenas — centenas, e agora o quê, milhares? Milhões? — de funcionalidades em um único aparelho deveria nos poupar muito tempo. Sabemos, porém, que essa bomba rouba mais do que pretendia poupar.

Diante dessa constatação, que não é nenhum pouco nova, algumas pessoas têm embarcado em uma certa jornada, e em tamanha escala que alguns nomes do mercado da informação têm chamado — de forma sensacionalista, na minha opinião — de “renascimento analógico”. E a jornada é exatamente esta: reduzir ao máximo o uso de aparelhos digitais, principalmente o celular, e substituí-los por invenções analógicas, em especial as dos anos 70, 80 e 90.

A prática (ou estilo de vida, embora o termo me seja enjoativo) é deveras interessante, e mais ainda por ser realizada, em maioria, pela tão criticada geração Z. Essa “nostalgia pelo que não se viveu”, como dizem alguns, reflete o desejo por tranquilidade, lentidão, silêncio, ou mesmo por naturalidade, desprendimento e, creio eu, singularidade, em completa oposição à plasticidade, ao imediatismo e aos diversos déficits que a modernidade, e o aparelho que a representa, evoca.

Dou ênfase à singularidade, e com ela me refiro ao anseio por ser especial, diferente, único (ou mesmo superior), que não só jovens, mas a maioria das pessoas — principalmente no Ocidente — nutrem. O individualismo por si só já é característico das sociedades “mais complexas”, e das que nelas se espelham. E essa vontade de ser diferente de todos os demais pode ser encontrada em qualquer pessoa que não tenha alcançado plena maturidade, e isso nada tem a ver com idade cronológica. Quero dizer que uma boa parte daqueles que se engajam nessa jornada podem, conscientemente ou não, estarem inclinados a isso pelo mero capricho de ser “tradicional”, de ter um tempo de tela próximo de zero, de ser um apreciador da dopamina “limpa” (palavra que me lembra algumas ideologias fortemente baseadas em limpeza), e tudo, claro, voltado ao olhar alheio.

“Olhar alheio” não se limita, de forma alguma, àqueles ocasionais, do acaso, que se voltarão talvez na rua, talvez no trabalho, ou seja, um olhar limitado à realidade física. Esse olhar na verdade é, de modo bastante cômico, digital. Em torno da tendência (concordemos, um conceito fatalista) já se criou uma estética, e com base nela, um mercado. Meu amor pela experiência tática que os aparelhos analógicos proporcionam, bem como pela verdadeira posse das mídias que na modernidade são apenas emprestadas (no que algumas pessoas chamam de feudalismo digital), me levou a pesquisar sobre essa jornada e a, logo em seguida, perceber como o algoritmo fez uso dele para resumir os conteúdos recomendados a dezenas de vídeos que falam sobre a exata mesma coisa, com as mesmas palavras, não agregando nada de novo e, portanto, visando dinheiro fácil. A iluminação, a música, a perspectiva, tudo foi muito bem utilizado para construir um outro nicho a ser agenciado pelo capitalismo e transformado em novo alimento para o consumismo (ele em si nada novo) de alguns.

Do outro lado do teatro há quem seja fisgado por seu verdadeiro interesse pela vida analógica, e que encontrará uma outra forma de pressão digital, dessa vez com discursos como “você PRECISA substituir o seu celular” (será o uso de letras garrafais algo meramente estético?), “você perderá x anos da sua vida se não fizer isso”, “como melhorei minha saúde mental com tal aparelho analógico”, e alguns mais, que parecem propositalmente esquecer o quão privilegiada é a pessoa que pode ter uma vida analógica sem grandes problemas. A questão da diminuição do tempo de tela está em um casamento bigâmico com a vida analógica e com o discurso, muitas vezes tóxico, da produtividade, já problematizado. E, na realidade, toda essa tendência também já o foi, e tão exaustivamente que chegou a virar uma outra forma de “surfar” e ganhar uns trocados. Chega a dar enjoo as thumbnails idênticas, com uma garota ao centro, uma colagem de posts e imagens propositalmente “aesthetic” ao fundo, e o título preto com bordas brancas.

Mas ambos os excessos antagônicos — a favor e contra, ou, de forma mais justa, incitador e acusatório — criam conteúdo útil para diversas reflexões, em especial: até que ponto o desejo por uma vida analógica é realmente espontâneo, e não fruto de estratégia mercantil?; e até que ponto a acusação é realmente bem intencionada, e não outra forma de, amargamente, criticar as iniciativas dos mais jovens e/ou conscientizados por uma independência do monopólio digital?

Creio que quem se aventura nessa corda bamba deve ser extremamente cauteloso para não cair para um lado — e comprar todo tipo de aparelho analógico porque a internet diz que sim — ou para outro — e se manter no “conforto” da vida digital porque a internet diz que sim.

Quanto a mim, continuo nutrindo enorme interesse pela vida analógica. Em verdade pretendo substituir o celular moderno o máximo que puder. Como posso demonstrar a seguir, e talvez nesse momento nos despeçamos, o radicalismo que permeia boa parte da minha vida se aplica também aqui.

O projeto

O meu objetivo é levar a vida analógica ao mais extremo que a sociedade e as obrigações que ela me dá me permitirem. Isso inclui substituir as funcionalidades do celular moderno — a câmera, os apps de música, os apps de mensagem —, me livrar das redes sociais — Instagram, Twitter, e, sim, o YouTube — e de outros aparatos da modernidade, como os streamings e os jogos digitais. Aqui, registro minhas escolhas, que podem servir de inspiração para aqueles que estão mergulhando agora nesse aquário de cardumes e agrupamentos. 

Funcionalidades do celular moderno

A câmera

Aqui já gostaria de tecer meu comentário sobre como o termo “analógico” não se aplica a alguns aparelhos que muitos incluíram em suas listas. Exemplo: a câmera Cybershot, que é obviamente digital. De qualquer forma, é uma boa escolha para a substituição: é mais prática para usar em momentos que se tem pressa, e as fotos serão realmente suas, e não de qualquer empresa de armazenamento. E também o serão se forem tiradas com as câmeras de fato analógicas, de filme (a exemplo da minha modesta Olympus Infinity Zoom 80), talvez uma Polaroid. Para filmagem, as Cybershot se aplicam, claro, bem como algumas câmeras mais profissionais. Claro que uma opção realmente analógica não me parece muito possível, não de forma acessível. Mas isso já não é de meu interesse.

Os apps de música

Os vinis, tocados no aparelho mais lindo que o ser humano já criou, a vitrola, são uma ótima opção para ouvir música em casa. O iPod, muitas vezes apenas chamado de “mp3” (de novo, digital), é uma boa opção para usar fora de casa, enquanto os CDs e fitas cassete, essas tocadas em tocadores de fita ou no simpático Walkman, constituem opções de meio-termo (se você tiver um carro, dependendo do carro, os CDs se aplicam).

Os apps de mensagem

Devo ser sincero e confessar que o celular moderno é uma grande tentação para mim. Mesmo as mensagens entre amigos podem me distrair, e por isso substituir o celular moderno pelo famoso Flip me seria muito útil. Dessa forma eu posso reduzir o uso do celular ao app de mensagens mais usado por nós brasileiros, o WhatsApp, e, nos meus momentos de concentração, até mesmo fora de casa (amo ser radical), faria uso do Flip, que receberia SMS ou ligações, se realmente importantes.

As redes sociais

O Instagram

Para minha infelicidade, me comprometi a postar stories sobre meu Projeto Dostoiévski (em que leio sua obra completa), pois sou um ser humano, portanto falho, e criei uma ilusão de que alguém se importa. E seguirei crendo que alguém se importa quando, ocasionalmente, quiser compartilhar atualizações de minha vida. Logo, pretendo desinstalar o app assim que terminar o mencionado projeto, deslogar em todos os aparelhos, e voltar apenas nessas ocasiões específicas (para depois deslogar de novo).

O Twitter

O uso dessa rede para mim resume-se em praticidade: é onde procuro conteúdo pirateado. Aplicarei a mesma prática do app anterior.

O YouTube

Se iludem aqueles que excluem este app de suas listas negras. Argumentam a duração dos vídeos, a utilidade deles — de fato há muito conteúdo interessante —, etc. Sinceramente, todo o seu tempo antes gasto em outras redes será transferido para essa: você fica caçando e caçando um vídeo de seu interesse, assiste metade de um, volta a procurar, e assim sucessivamente. Acho crucial desinstalar este também, e limitar sua presença ao notebook, utilizando-o por real necessidade, e não por estar condicionado.

Streamings e jogos

Você paga Netflix, Disney, Prime, HBO, Paramount, e sei lá quantos mais, mas quando procura um filme, principalmente um nostálgico, guardado com carinho na memória… não encontra. De qualquer modo, os streamings têm se limitado ao cinema hollywoodiano moderno: para quem aprecia a sétima arte, uma verdadeira porcaria. Sugiro o DVD. Esse sim foi um aparelho presente na minha infância, muito apreciado pela minha pessoa. Compre os CDs de filmes e séries favoritos. A pirataria também existe por um motivo.

Quanto aos jogos… Nunca fui muito fã. Mas já me ocorreu de instalar algumas baboseiras para encarar (na verdade isso constitui mais uma fuga do que um enfrentamento) o tédio, quando poderia me engajar em algo menos viciante, como jogos de cartas, de tabuleiro, palavras-cruzadas (no formato físico), e outras opções existentes.

Obstáculos

Obviamente, a sociedade espera algo de nós. Que estudemos, que trabalhemos. Muitas aulas trarão como material vídeos do YouTube e conteúdos de outros sites, muitos empregos exigirão contas em determinados sites, e tudo isso exigirá algum aparelho com acesso à Internet. Ou seja, é claro que uma vida 100%, ou mesmo 60% analógica é impossível. Sinto informar. Ao menos para nós meros trabalhadores, é impossível. É necessário que se tenha, no mínimo, um notebook. Mas isso não significa que alguém te obrigará a ter constante acesso às redes sociais, então tudo bem.

É claro que alguns temos o desejo de nos informar, e de preferência de acordo com nosso posicionamento político. A Internet nos dá muitas opções, opções altamente personalizadas, para realizar esse desejo. Concordo que é complicado se sentir satisfeito com qualquer jornal de redação ou de rádio. Eu recomendo que compre jornais específicos, geralmente fornecidos perto de universidades públicas, que estarão voltados ao seu posicionamento. E o notebook ou celular também podem ser limitados a isso.

Algo que pode ser objeto de preocupação é a possibilidade de fazer amizades, que a Internet também nos dá de forma bastante personalizada. Quer dizer, nas redes sociais é muito mais fácil encontrar pessoas muito parecidas com você, em matéria de gosto, de cultura, de personalidade, de ideologia, etc. Realmente fiz ótimas amizades através dela. Mas as pessoas faziam amizades duradouras e valiosas antes da Internet. Afinal, essa é a intenção de ter uma vida analógica: voltar a ter as virtudes que as pessoas tinham antes dos adventos da modernidade, isto é, a paciência, a tranquilidade, e também as habilidades sociais. De qualquer forma, recomendo que crie sua base antes de se desfazer das redes.

Conclusão

Creio que a maior “dica” que posso dar é: tenha apoio. Você deve ter uma pessoa especial, que dá valor às suas decisões, e que poderá te policiar quando “cair em tentação”. Talvez você não precise de grandes “hobbies analógicos”, mas sim do verdadeiro e muito valioso contato humano.

Em verdade, gostaria muito de poder jogar meu celular na privada. Diante das obrigações em sociedade, porém, contentemo-nos com essas estratégias. A vida mais tranquila é possível.


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