O Mais Terrível Sonho

Dormia.

   E dormia profundamente, devido à insistência de sempre, sempre, querer ouvir as músicas assim que eram lançadas, à meia-noite. Mesmo que não pudesse manter a completa atenção à melodia, às nuances de timbres, instrumentos, compassos e tons; mesmo assim, insistia.

   E à sua insistência deveu-se o sono profundo que desfrutava, depois de muitas noites mal-dormidas para conseguir a incrível proeza de ler um livro por dia.

   Já era quase manhã, aquele momento em que um pequeno véu cinza-azulado ameaça a escuridão completa da madrugada. Aquele momento em que, se fosse em uma fazenda, um galo já estaria cantando, apenas para aquecer, antes dos verdadeiros trabalhos.

   Em meio ao silêncio total desse momento de paz, seu inconsciente pôs-se ao prazer da tortura.

   Inesperadamente, pois raramente acontecia, estava sonhando.

   Nunca sonhava. Não de forma coesa, de modo a revelar algum segredo de sua psiquê; ao contrário, apenas sonhos repletos de abstração e de humor nonsense, gerando breve divertimento e rápida queda ao oblívio.

   Pesadelos também não eram comuns. Quando surgiam, era algo relacionado a ser esmagado pela mãe, ser crucificado pela família, ser rejeitado pelos amigos, ou qualquer outro pavor secreto; gerando pequeno pranto, mas não impedindo que voltasse a dormir.

   Esse, porém, foi diferente.

   Sua mente lhe inseriu em cenários cinzas aleatórios, cercados por metal e bagunça. Em meio a eles seguiram-se situações diversas, que em nada importam; não, porque não era isso que sua mente vilanesca queria tatuar em seu cérebro, fazendo com que, de tempos em tempos, se pegasse pensando em tamanho disparate 一 ou será que não? 一 e sentindo vergonha e insegurança indevidas. Não. Não eram esses enredos inofensivos. Mas não demorou a chegar.

   Ainda nesse cenário cinza, metálico, levemente melancólico. Agora, porém, sentia um repentino desconforto, instinto de defesa, como se pudesse pressentir a estranha e abominável tragédia. E encontrava-se em uma sala.

   Igualmente bagunçada, cheia de entulhos metálicos, uma televisão à cabo, de tubo, velha e imprestável, uma geladeira mutilada pelo processo de oxidação, um sofá surrado de três lugares coberto por uma fina manta puída estampada em xadrez, e com cômodos bem próximos, sem portas, apenas os batentes lascados. Em suma, era uma casa minúscula, maltrapilha, carente de acabamentos, dinheiro, ou talvez de um morador dedicado e limpo. Não era o caso.

   Já vira isso antes. Não exatamente, mas a mesma ideia. Onde? Não se lembrava, mas as profundezas do pensamento ainda se debruçavam na questão, enquanto andava pelo local. Sentou-se em uma ponta do sofá. Percebeu que seus membros, seus nervos, seu corpo em geral, mantinham-se tensos, retesados, talvez prontos para luta ou fuga. Luta ou fuga de quê? Não sabia, e não pensava muito sobre, pois não beirava tamanha força em raciocínio, eram sussurros soltos e breves que sequer criam palavras, apenas conceitos.

   Enquanto seu corpo permanecia encolhido no sofá, mesmo não havendo mais ninguém nele, ouvia vozes constantes do lado de fora; que não formavam construção de sentido alguma, eram brisas, ruídos quase robóticos que se intercalavam uns aos outros, que se manifestam em todos os sonhos, apenas para preencher espaço.

   Subitamente tomou consciência da presença de sua mãe. Não ouvia sua voz, pois aqueles barulhos não podem ser assim considerados, mas sabia, simplesmente. Uma dessas informações repentinas que nossos sonhos decidem adicionar ao roteiro.

   E de repente, seu pai.

   Olhava para o batente mais próximo, à esquerda, quando seu pai, quase batendo a cabeça no teto, passou por ele. Forte, de alguma forma ainda mais branco do que era de fato, as roupas, como sempre, manchadas com aquela coisa preta que nunca soube o que era, os cabelos cacheados cortados em um mullet desleixado que sempre fazia a mãe dizer que eram parecidos. Como se o pai, em seus cinquenta e três anos, realmente soubesse qual era seu corte de cabelo ou o que ele representava.

   Mas, por que seu pai? Não o via há alguns meses ou um ano 一 ambos eram extremamente possíveis 一, e mesmo que tivesse o visto, abraçado e sorrido falsamente, com rancor transbordando na alma, ontem mesmo, não sonharia com ele. Não se importava.

   Mais importante que o porquê de sua presença, o que exatamente ele faria no sonho? Nada de muito memorável, imaginou.

   E não podia haver engano maior.

   O pai sorria, com aquela cara enorme e quadrada. Disse alguma coisa em tom de riso, que o sonho 一 a única clemência que lhe concedera 一 abafou, deixando apenas a ciência de que falou. E provavelmente com aquela voz desgraçada, burra, fazendo graça, uma palhaçada sem tamanho, que nunca lhe arrancou riso sincero.

   E sentou na outra ponta do sofá.

   Falou, falou, e falava como se quem ouvisse fosse uma criança. Já falara assim antes, mas não de forma tão… asquerosa.

   O que exatamente falava não sabia, mas algo como “não pode fazer seu papai chorar”, algo imbuído em autopiedade e farsa, lampejava em sua cabeça.

   De repente ele se aproximou.

   Muito.

   O ombro dele tocava o seu, a coxa dele tocava a sua, pressionava-os, até.

   Se encolheu ainda mais, como se fosse possível. Não adiantou.

   Ele estava decidido em se aproximar, e agora deitava a cabeça bizarramente enorme em seu ombro, os cabelos cacheados e oleosos espetando seu pescoço, sua clavícula, seu maxilar. Ele começou a soltar lágrimas, dizendo algo como “não pode fazer o seu papai chorar; eu estou chorando, olhe; você tem que me alegrar agora”.

   Não entendia. Não entendia por que isso estava acontecendo, qual era o verdadeiro teor disso, mas sabia que era estranho, errado, e acima de tudo, que não queria. Suava. Seu coração acelerava. Tornou-se subitamente consciente de que as vozes exteriores silenciaram-se. Percebeu sua magreza, pois se encolhia a ponto de sentir os ossos protuberantes do quadril, dos braços e das pernas em atrito com o braço igualmente esquelético do sofá. Pensamentos latejavam em sua cabeça, “pare com isso, pare com isso, eu não quero”, e decidiu exteriorizá-los.

   一 Pare com isso!

   Seu pai, ainda com a cabeça próxima de seu ombro e pescoço, olhou de baixo, com lágrimas nos olhos, mas um sorriso cínico e sádico nos lábios.

   Levantou levemente, agora de coluna ereta rente ao móvel cada vez mais gasto e nojento. Mas agora passava o braço por cima de seus ombros, a mão grande apertando firme o direito.

   Como era possível se sentir cada vez menor?

   O pai continuava a repetir “não pode deixar o papai chorar”, “estou chorando”, “você tem que me alegrar”. Repetia, repetia, repetia… E agora a mão esquerda pairava perigosamente próxima de seu ombro esquerdo, já não bastava o ombro direito que ainda lhe apertava…

   Não, não só isso. Pairava perigosamente próxima da região do tórax, do peito, coberto apenas pela camiseta branca de tecido fino 一 por que diabos estava usando aquilo?

   Continuava falando que devia agradá-lo e 一 “por favor, não” 一 enfim passou a mão pela região, esfregou ali, e descia.

   一 Não! Não!

   Gritava, mesmo que de forma abafada pelo sonho, como em todas as vezes que nos encontramos em terror extremo.

   Sentia agora o corpo inflamar, de raiva, de vergonha, de nojo, de culpa, à medida que a mão descia até o meio das pernas, cobertas por calças jeans apertadas 一 por que diabos estava usando aquilo? 一, e tentava apalpar a região.

   Sentia vontade de chorar, podia sentir que o nariz começava a arder, prenunciando o ato.

   E gritava para que parasse.

   E soube que a mãe estava lá fora, mesmo que não ouvisse a voz, sabia que estava lá, sentia.

   一 Mãe!

   A palavra arrastou-se no grito, que perto do fim tornou-se agudo e animalesco, esganiçado. A garganta parecia cheia de cacos de vidro.

   Sentia-se em pedaços.

   Conseguiu afastar-se do pai, mesmo que pouco, e virar-se para a pequena janela quadrada atrás do sofá, que nem sabia existir até então. Debruçou-se sobre o sofá, metade do corpo para fora da janela, e gritou, e gritou 一 “Mãe!” 一, e chorava, e tudo em si queimava, quebrava, e via o céu cinza, o chão cinza, parecendo grama morta, pálida, tudo era tão morto e pálido, como num filme de terror, e sentia que em breve estaria assim também…

   Gritava por ajuda, quando seu pai lhe agarrou por trás e…

   Fechou os olhos.

   Sentiu que tudo sumia.

   E, finalmente, nunca soube exatamente se o corpo reagiu ao sonho 一 digamos a verdade: o terrível pesadelo 一, ou se o clímax do sonho viera para alertar que estava morrendo, sentiu.

   O coração batendo.

   Lentamente.

   Tum… Tum… Tum… Tum… 

   Tudo preto, e levemente voltava à consciência…

   Tum… Tum… Tum… Tum... Tuuuuuuuuuuuuuuummm…

   Aquele último bater se alongou, se alargou, parecia que uma corda esmagava seu peito, e o coração ia explodir, rasgar em um show de sangue e tecidos finos…

   Acordou.

   Sentiu vazio, tontura, dor.

   Aos poucos o coração voltava a bater normalmente.

   Respirou fundo, pela boca. Bebeu água da garrafa térmica que se encontrava ao lado da cama. Parecia velha, mas bastava.

   Se chorou, não lembrou depois, mas pensava, torturava-se pensando como pôde sonhar que o pai tentava lhe estuprar.

   Não convivera com o pai. Vivera sob o mesmo teto em seus primeiros sete meses de vida, e só.

   Será que fora pelos livros de assuntos sensíveis que andava lendo até tarde?

   Não sabia. Apenas ficou pensando, poucos minutos antes de voltar ao sono profundo e sem sonhos, formas de escapar daquela situação medonha.

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