Phantasmagoria
Phantasmagoria
CANTO I
ÀS ESCURAS
Era inverno, e às nove e meia,
Com frio, cansado, cheguei em casa,
Já bem depois da hora da ceia;
Mas no escritório uma taça cheia,
Charuto e um prato me esperavam.
Havia um quê de estranheza ali,
E na penumbra, um vulto pálido
Pairava quieto bem junto a mim –
Pensei ser uma vassoura, enfim,
Esquecida por desleixo do criado.
Sem demora a coisa passou
A espirrar e a se tremer:
Ao que atalhei "Ora, por favor!
Faça silêncio, meu senhor!
Estou exausto, não pode ver?"
"Estou gripado", disse-me o ser,
"Por ter andado a céu aberto."
Virei-me, espantado ao perceber,
Com os olhos que a terra há de comer,
Um fantasminha parado perto!
Estremeceu ante meu olhar,
E postou-se além da cadeira.
"Como chegou aqui?", pus-me a perguntar.
Jamais vira ser tão singular.
"Vamos, não se assuste dessa maneira!"
Respondeu "Eu bem lhe diria
Por que vim aqui, por que via,
Mas" (e curvou-se um pouco)
"O senhor parece tão nervoso
Que diria ser tudo mentira.
"E sobre estar assustado,
Deixe que eu conte a razão:
Fantasmas estamos fadados
A temer ambientes claros
Como os homens, a escuridão."
"Nenhuma razão justifica", eu disse,
"Postura tão assustada:
Fantasmas têm trânsito livre
E aos homens jamais se permite
Deixar-lhes a porta fechada."
Tornou a dizer: "Alguma ressalva
Não é atitude imprevista.
Temia que fosses uma ameaça.
Mas agora, ao ver tua calma,
Posso explicar o porquê da visita.
"As casas se classificam
Considerando-se o tanto
De fantasmas que nela habitam.
(Inquilino, janelas, mobília
Contam como peso morto).
"Está é para um só Fantasma,
E ao chegares, verão passado,
Deves ter visto um espectro em casa,
Fazendo todo o possível para
Recebê-lo recém-chegado.
"A isso se preza qualquer mansão
Por mais baixa que seja a renda.
E mesmo que um só de nós no salão
Garanta muito menos diversão,
Fantasmas precisam do que os atenda.
"O espectro partiu bem rápido,
Desde então, não tens assombro.
E como ele se foi sem dar recado,
Soubemos por um grande acaso
Que alguém devia assumir o posto.
"Na ordem para a escolha de uma vaga,
Espectro é o primeiro a decidir.
Depois, Fantasma, Goblin, Elfo, Fada.
Não havendo ninguém, então a casa
Pode ser dada a um Zumbi.
"Entre os espectros houve o boato
De que o seu vinho era ruim
E que este lugar era chato.
Então, para atender ao chamado
Eu, um fantasma, vim."
Retruquei: "Pois enviaram, eu entendo,
O mais disposto ao serviço.
Mas escolherem um fedelho
Para assombrar um homem feito
Não é de fato elogio".
"Não sou tão jovem quanto
Talvez, senhor, lhe pareça.
Em grutas à beira-mar e em outros cantos
Onde estive praticando meu espanto
Adquiri boa experiência.
"Mas como ainda não pude
Assumir meu papel numa casa,
Posso ter sido ansioso e rude
E esquecido um tanto amiúde
As Regras de Etiqueta Básica."
Rapidamente eu já estava
Simpatizando com o garoto:
Tinha a cara tão pasma
Por estar frente a um homem, numa casa
Que não escondia o assombro.
"Pelo menos", falei, "agora vejo
Que fantasmas não são piada!
Mas queira sentar-se um momento!
Deve estar faminto, penso,
Se, como eu, não jantou nada.
"Mas claro, talvez não tenhas
Nenhum interesse em comida!
Ficarei feliz se apenas
Vier e contar-me o que seja
Essa tal Etiqueta esquecida."
"Obrigado! Contarei num instante.
E tenho fome, de fato!"
"O que posso oferecer-lhe?" eu disse.
"Bom, já que és tão gentil, quero antes
Um pedacinho de pato!
"Um só pedaço está bom! E será
Que posso pegar mais do molho?"
Eu, espantado, o olhava jantar
Jamais tendo visto em ninguém esse ar
Empalidecido, de sonho.
Parecia que se tornava
Mais translúcido, macilento,
À luz oscilante e fraca
Sob a qual recitava
"Máximas de Comportamento".
CANTO II
SUAS CYNCO REGRAS
"A primeira regra declara,
E isto não é pouca coisa:
Se a vítima estiver deitada
Não se deve agitar, por nada,
O dossel de forma afoita.
"Com calma, que se abra a cortina
Por trás da qual ela dorme,
E em pouco tempo (duvida?),
Cheia de sono, essa vítima
Se encherá de medo enorme!
"E o fantasma que não inicie
A entabular a conversa
A vítima que principie
Mesmo que a angustie.
É assim que um fantasma se preza.
"Se perguntar 'Como chegou aqui?',
(Como o senhor fez, por exemplo)
O correto não é o que respondi,
Mas 'Nas costas de um morcego eu vim!'
É a resposta a contento.
"Se após esse início, ela
Voltar a dormir em resposta
Chacoalhe porta e janela!
Se não despertar, pode vê-la
Como uma completa derrota.
"Se em plena luz do dia,
Em casa ou na caminhada,
A vítima se encontrar sozinha,
Solte-se um gemido em sintonia
Com o tom da conversa esperada.
"Mas se ela estiver com mais gente,
A dificuldade se adensa.
Em casos assim é prudente
Buscar velas ou, de repente,
Manteiga ou óleo na despensa.
"Com isso é possível deixar
O chão bem lisinho, encerado
(Com sebo é fácil escorregar)
E aí deslizar, deslizar,
Assombrando de um pra outro lado.
"A segunda regra conduz
Ao tratamento mais decente:
'Acenda rubra ou branca luz'
(Algo a que hoje não fiz jus)
'E arranhe portas e paredes.'"
Cortei: "Pois faça algo nesse estilo
E nunca mais pisa aqui!
Não quero fogo em meu piso
Nem quero ver um só risco
Nas portas que há por aí."
"A terceira regra foi escrita
Pensando em proteger
Os interesses da vítima:
'Trate-a de forma benigna,
Sem nunca a contradizer.'"
"A regra é clara", tornei,
"Não há quem não a entenda.
Pena que alguns que encontrei
Parecem dizer 'Não sei'
Sobre esta lei que comenta."
Ele: "Quem sabe não foi você
Quem errou na hospitalidade?
Não há quem suporte ver
Um homem falho em manter
As normas de cordialidade.
"Chamar fantasma de 'coisa'
Ou atacá-lo a pauladas,
É tudo que ele precisa
Para calar e ir pra briga
Até pelo Rei chancelada!
"A quarta proíbe a invasão
De um lugar já assombrado:
Quem sofrer tal condenação
(A menos que o Rei dê perdão)
De pronto é esquartejado.
"Feito em pedaços pequenos,
O fantasma mal sente dor
(E se recompõe num momento).
Dói tanto quanto a você, por exemplo,
Dói o corte do editor.
"A quinta eu direi inteira
Pois talvez você prefira:
Qualquer cortesão, em sua presença,
Deve chamar o Rei de 'Alteza'.
Não há mais que a lei infira.
"Mas para tratá-lo, em verdade,
Com toda a pampa e decência,
Chame-o 'Rei Goblin', 'Majestade'
E sempre que ele lhe fale,
Responda 'Vossa Branquência!'
"Temo estar ficando rouco
Com toda esta nossa prosa.
Então, se não for incômodo,
Deixe-me beber um pouco
Dessa cerveja. É gostosa?"
CANTO III
ESCARAMUÇAS
"Você teve que andar
Em meio a esta noite horrível?
Fantasmas não sabem voar?
Pensava que sim. Ou planar.
Não diga que é impossível!"
"Aos Reis", respondeu, "é bem fácil
Voar a enormes alturas.
Mas fantasma é estatuto baixo,
E poder se valer de asas, acho,
Custaria grandes fortunas.
"Espectros, claro, são ricos
E podem comprar suas asas
Dos Elfos. Mas não os estimo
São muito arrogantes, e ouvimos
O que, sobre nós, eles falam:
"Mesmo fingindo manter
Postura livre de orgulho,
Tratam-nos com um quê
de grande soberba, talvez
Por nos verem como entulho."
"Parecem bastante altivos
Para esta casa, de fato.
Mas diga, como é possível
Saberem ser ruim meu vinho
E ser, este lugar, chato?"
"O Inspetor Kobold tentou..."
Passou a tentar me contar.
Mas logo exclamei, "Que inspetor?
Fiscal de fantasma, que horror!
Por favor, queira me explicar."
"Seu nome é Kobold", seguiu,
"E é da ordem espectral.
Pijama amarelo, já viu?
Colete carmim, gorro anil.
Nunca o encontrou no quintal?
"Primeiro, assombrou na Alemanha
Mas pegou uma gripe severa.
Então, deixou a montanha,
Tratando-se aqui, mas reclama
De beber demais na Inglaterra.
"Que o vinho do Porto, encorpado,
Esquenta seus osso, é certo.
E sendo em albergues que pode
Encontrar desse vinho forte,
O apelidamos de Albergto."
Impávido, um cavalheiro,
Ouvi o trocadilho horrível.
E segui cortês, com respeito
Até que ele, em exagero,
Tornou-se provocativo.
"É certo que não se deve
Desperdiçar alimentos,
Mas cozinheiros padecem
De insipidez, é incontente.
Onde estão os condimentos?
"Aquele outro serviçal
Jamais será bom criado.
Trazer, no prato, um carvão?
(Serviço triste que não
Há meio de ser contestado).
"O pato era tenro, porém
As ervilhas estavam passadas.
E queira lembrar-se também
Que as torradas, da próxima vez,
Não se deve servir geladas.
"O pão ganhará em sabor
Se usarem farinha melhor.
E para beber, o senhor
Não teria algo em que a cor
E o sabor não lembrassem jiló?"
Depois, com olhar analítico,
Murmurou para si "Ora essa!"
E voltou, novamente, a ser crítico,
Disse não ser nada incrível
O aposento daquela conversa.
"Este é um cômodo triste,
Sem primor, qualquer glória."
"Mas devo observar", eu lhe disse,
"Que sua arquitetura é um requinte
Dos tempos da rainha Vitória!"
"Tanto fez quanto tanto faz
O período dessa construção.
Foi projetada por um incapaz?
Algo tão ruim eu não vi jamais
Desde que sou uma assombração!
"E veja este belo charuto!
Quem sabe me dás de presente?"
Rosnei: "Não seja absurdo!
Quanto atrevimento. Isso tudo...
Acaso nós somos parentes?!
"Pois isto lhe digo: não aceito
Jamais esta sua postura."
"Ah!", zombou, "Estufando o peito?"
(E nisso agarrou um cinzeiro)
"Pois vamos partir pra loucura!"
Com uma pontaria precisa
Gritou "Lá vai bomba!", feliz.
Tentei me esquivar da mobília,
Mas ele tinha boa mira
E o cinzeiro acertou meu nariz.
Depois, não lembro de mais nada
Até encontrar-me no chão.
Com a cara já meio inchada
Balbuciava "Manada
É o coletivo de pavão".
O que se passou, eu não sei
E nunca haveria de saber.
Quando por fim recobrei
Os sentidos, o que encontrei,
Foi a figura de um ser,
Em meio à luz já bem fraca,
Sorrindo, perdido em lembranças.
E vi que ele declamava,
Julgando que me interessava,
A história de sua infância.
CANTO IV
SUA CRYAÇÃO
"Ah, e que bela infância,
Que dias mais empolgantes!
Sentadas no muro, as crianças
Fantasmas felizes com a pança
Cheia de torradas do lanche."
Interrompi: "Mas que nada!
Eu conheço bem essa rima.
Ela até já foi publicada!"
(Então o fantasma, sem graça,
Me disse que nunca a ouvira).
"Não é uma canção de ninar?
Acho que sim. Um versinho
Em que 'três fantasmas', ao luar,
Sentados 'cada um num pilar',
Lambuzavam-se com os 'lanchinhos'.
"Tenho o livro aqui, se duvida..."
E fui procurar minha cópia.
"Senhor", respondeu, "não precisa.
Eu assumo, evitando a fadiga:
Fui eu que escrevi essa história.
"Foi publicada primeiro em semanário,
Disse um agente que eu tinha...
Daí, um grande editor literário
Pensou ser acréscimo válido
À revista que ele mantinha.
"Meu pai era duende, senhor;
Já minha mãe, era Fada.
E de pronto ela pensou
Que os filhos estariam melhor
Se criados de formas variadas.
"A ideia logo virou febre.
Mamãe, assim como propôs,
Criou-nos bem como se deve:
Um Duende, duas Fadas, e teve
Até mesmo um Banshee gritador.
"Houve problemas aos montes,
Com o Duplo e a Ninfa na escola.
E havia o Zumbi, o Poltergeist,
Dois Trolls que eram um disparate,
Além de um Goblin e um Sósia...
"(Aquilo é rapé, na estante?"
Perguntou, com um sorriso tolo.
"Eu gostaria de um pouco). E antes
de mim houve um Elfo, e eu antes
do nosso caçula, o Gnomo.
"Um belo dia, uns espectros
vieram, vestidos de branco:
Fiquei a olhá-los, não muito perto,
E era incapaz de dizer ao certo
Por que me encantavam tanto.
"Matutava, apenas para mim,
Sobre sua elegância e classe
Mamãe disse: 'Não os encare assim',
Puxando-me para trás de si,
Impedindo que os afrontasse.
"E desde então meu desejo
Foi ter nascido entre os espectros.
Eles são como reis, hoje eu vejo,
A nos tratar com profundo desprezo."
(E suspirou, o olhar perdido no teto).
"Enfim, minha vida de fantasma
Começou entre cinco e seis anos.
Saí a brincar fora de casa
E desde o começo achei graça
De todos os sustos e espantos!
"Assombrei torres, castelos, grutas;
Onde quer que me enviassem.
E muitas vezes ecoei, na chuva,
O uivo profundo das catacumbas,
Para que humanos se arrepiassem.
"Mas hoje em dia, gemer é brega.
Pelo menos assim me dizem.
A nova moda no assombro é esta:"
E entoou, de forma funesta,
Um guinchado dos mais horríveis.
"Talvez", prosseguiu, "você pense
que é fácil guinchar desse jeito.
Se acredita nisso, tente!
Pratiquei um ano, crente
De que nem chegaria perto.
"E quando se aprende a guinchar
E o soluço vem junto, em alarde?
É ruim demais continuar...
Vamos, tente fazê-lo sem ar!
Guinchar assim é uma arte.
"Eu já tentei, lhe garanto,
E sei que você não faria
Mesmo praticando e tentando...
A menos que tivesse um tanto
De dom, mas não há garantia.
"Shakespeare, se não me engano,
Falou de fantasmas antigos
A caminhar pelo Império Romano
Vestidos com bem pouco pano.
Deviam sentir frio, é o que digo.
"Já comprei uma porção de roupas
Para me passar por um Duplo.
Fico parecido, senão em todas
Pelo menos uma vez ou outra,
Mas o trabalho é absurdo!
"E a dinheirama que exige
De pronto nos desestimula.
Montar cenário é até mais triste;
Demanda que a gente ou pechinche
Ou seja dono de uma fortuna!
"Pense numa torre mal-assombrada,
Com caveiras, ossadas, trapos...
Algumas velas de chama azulada,
Alguns truques de espelho e fumaça
E correntes em todo quarto.
"E o que dizer dos preparativos:
Ajustar o caimento do manto,
Conferir se as correntes têm tino?
Para dar conta de tudo isso
Há que ter paciência de santo.
"Daí, cumprir os requisitos
do Comitê de Assombração e Espantos.
Às vezes um fantasma é mal visto
Por ser francês, ou russo, ou vindo
Da cidade, e não do campo!
"Desaprovam sotaques, também.
O irlandês, por exemplo, é um desses.
E depois de fazer o que lhes convém
Eles nos pagam dois míseros vinténs
E nos dispensam sem pensar duas vezes!"
CANTO V
DYSCUSSÃO
"E as vítimas não são consultadas?"
Eu quis saber. "Que indecência!
Como é que podem não dizer nada
Sobre a assombração que lhes é destinada?
Cada um tem a sua preferência."
O fantasma, sorrindo, fez que não.
"Consultadas? Deus me livre!
Isso demandaria um batalhão,
Atender cada capricho de chorão...
Não haveria mais limite!"
"Se a vítima estiver na infância,
Claro que dará trabalho.
Já eu, que não sou criança,
Mas seu anfitrião, tinha a esperança
De dar meus palpites, meu caro!"
"Será impossível, lamento.
O protocolo é bastante específico:
Chegando na casa, eu tento
Saber se me hospedo, pois dependo
De boas condições para isso.
"E mesmo sem a consulta do anfitrião
Antes que o arranjo seja imposto,
Se o fantasma não garante assombração
Ou, digamos, falte com educação,
Você pode pedir que deixe o posto.
"Se a casa não for nova demais,
E o anfitrião, como o senhor, razoável..."
"Espere! Que diferença faz?
Que problema uma casa nova traz
Que um fantasma ache intolerável?"
"Casas recentes não nos servem muito.
Há sempre algo que reparar.
Mas depois de uns vinte anos, tudo
Começa a descascar, racha o muro,
E aí sim se pode assombrar."
"E o que, por obséquio,
Queres dizer com 'reparar'?
Não é que eu seja um néscio,
Mas desconheço, confesso,
Um sentido que venha a calhar."
"Quero dizer: rachar o telhado",
Respondeu, a gargalhar.
"E perfurar todo o assoalho,
Encher os cantos de buracos
Criando correntes de ar.
"Agora, é mais prático quando
Poucos furos são bastantes
Para que o ar entre assobiando.
Reparar isto aqui, entretanto,
Dará um trabalho gigante!"
Bufei: "Pois sim. E se eu chegasse",
Tentei sorrir, sem sucesso,
"Apenas um pouco mais tarde,
Teria que admirar essa arte.
Gastou o dia todo no processo?"
"Como? Não! Embora pudesse
Ter feito uma revisão...
Mas proíbem que um fantasma comece
A trabalhar antes que se converse
Com o morador em questão.
"Como você demorou a chegar
Eu deveria ter ido embora.
Mas lá fora era frio de amargar
E pedi ao prefeito para esperar
Aqui mesmo por mais uma hora."
"Mas que prefeito?", eu quis saber.
E o fantasma, como quem reclama,
Retrucou sem me responder
"Se não o conhece, não deve ter
Jamais jantado e ido pra cama!
"Ele costuma sentar em cima
De quem, à noite, come demais.
Faz com que paguem a glutonia
E o peso todo lhes dá azia."
(Falei: "Que assombração eficaz!")
"E aqueles que jantam um prato cheio
(Com ovos, lagosta, galinha,
Pato assado, queijo e bacon),
Posso afirmar, sem nenhum receio:
Terão uma azia infinda.
"É tão gordo, tão imenso,
Que serve bem à função.
Por esse motivo, penso,
Que o chamávamos, há um tempo,
Prefeito e Coligação!
"No dia em que foi eleito,
Sei que a mim queriam
Votar para seu prefeito.
Mas todos tiveram medo
Ao ver sua euforia.
"Assim que venceu, orgulhoso,
Correu a contar ao Rei.
Mas sendo o exato oposto
De magro, foi dificultoso
Correr duas milhas, ou três.
"E a fim de recompená-lo
Por correr estrada afora,
O Rei, também como escárnio,
Pensou que podia armá-lo
Cavaleiro naquela hora."
"Ora, mas que ousadia!"
(Falei, cheio de desgosto)
"Fazê-lo só por zombaria!
Um homem que zomba um dia,
No outro, sonega imposto."
"Um homem", tornou, "não é o Rei".
Ainda insisti, já tonto,
Fazendo o melhor que sei,
Mas o fantasma, risonho,
Não concordou com meu ponto.
Por fim, cansado e inquieto,
Parei a fumar um pouco.
"Seu intento", ele disse, "é honesto,
Mas este seu argumento...
Deseja tentar de novo?"
Reagindo a sua investida
Eu argumentei de pronto.
"Só há uma certeza na vida,
Na qual nem descrente duvida:
A morte alcança a todos."
"É verdade", ele disse, "é verdade..."
Escutei com atenção –
"A morte, mais cedo ou mais tarde
A todos alcança. É verdade.
Mas a sorte não."
CANTO VI
DERROTA
Como o esforço contente
De escalar monte novo,
Mas que a cada passo pressente
Arrefecer seu deleite
E aumentar seu desgosto
Que tenho subido um pouco,
Jamais voltará atrás,
E a todo instante se vê de novo
Vislumbrando o céu sobre o topo
Onde o bom descanso jaz;
Que escala até que lhe faltem
As forças para seguir;
Ao passo em que o fôlego acabe
Se enche de ira e desgaste
Mas não deixa de subir;
E que, alcançando o topo
Que encima o monte tomado,
Com passo vacilante e torto
Receba do vento um soco
Que o larga a solo tombado;
Sentindo-se em queda livre,
De novo encosta abaixo,
Sujeitado ao declive,
Enfim tomba em seu limite:
Encontra-se estatelado.
Assim eu, que tentando
Persuadir a aparição
Descobri ser tarefa e tanto
Convencer um não humano,
Continuei na missão.
Pensando atingir sucesso
No fim daquele debate
Lutei por provar-me certo
Via silogismo esperto
Com tudo que é verdade.
Compus todas as sentenças
Dizendo "portanto", "destarte"
E logo me encontrei presa
De frases sem qualquer presença,
Sem chegar a qualquer parte.
E ele retrucou: "Que besteira.
Desista de se esforçar.
Que tal descansar à beira
De sua pomposa lareira?
Pare de se envergonhar!
"Tens o mesmo temperamento
De alguém que eu conhecia
Em fúria, um dia, o sujeito
Bateu tanto no próprio peito
Que por pouco não morria."
"Que coisa!" falei, e ele riu,
Com severas diatribes.
"Que coisa! Que coisa!, viu?
Mas é como é, tal se diz.
Assim como seu nome é Tibbs!"
"Mas esse não é o meu nome."
"Não é!?", perguntou, abalado.
Confirmei: "Não sou Tibbs, bom homem.
Em verdade, sou Tibbet, meu nobre."
"CÉUS, ASSOMBREI O HOMEM ERRADO!"
Nisso, golpeou a mesa,
Chacoalhando taça e prato.
"Por que não me avisou dessa
Assim que cheguei, ora essa!?
Seu grandessíssimo asno!
"Fazer-me andar noite afora,
Na chuva, morrendo de fome,
Só para jogar papo fora
(Terei que repeti-lo, agora);
Que perda de tempo enorme!"
"Me poupe!", ele disse quando
Tentei lhe pedir desculpa.
"Com pouco fôlego eu ando,
E nem me agrada este canto
Ou sua cara de mula.
"Deixar-me ocupado e não
Me avisar de partida
Que esta não era a mansão!
Estúpido, bobalhão!
Saia já da minha vista!"
"Ora, é fácil demais ir culpando
A mim, que de nada sabia!
Por que não chegou perguntando
Meu nome, seu fantasma estranho?"
Falei, cheio de euforia.
"É certo que lhe aborrece
Andar tanta légua a pé.
Mas a culpa é minha, parece?"
"De fato, eu talvez pudesse
Dizer-lhe, bem, que não é.
"E para ser verdadeiro,
O senhor foi bem generoso.
Perdoe meu destempero.
Mas esse tipo de coisa
Deixa a gente rancoroso.
"Foi culpa minha, de fato.
Desejo-lhe boa noite,
Meu velho Cara de Nabo!"
Eu quase caio em seu papo,
Mas só desejei que se fosse.
"Boa noite, bom nababo, vou à estrada!
Assim que me for, eu suponho,
Mandarão para ter a casa assombrada
Um espírito menor, duende ou fada
Que atormente e lhe tire o sono.
"Seja rígido, não aceite
Que se perca o tal decoro.
E se ele mostrar os dentes
Em desafio, não deixe
Que lhe faça desaforo!
"Diga apenas: 'Veja bem,
Talvez não lhe esteja claro,
Mas fazendo o que lhe convém
Sairá daqui sem um vintém
E debaixo de um sarrafo!'
"E é assim que se trata um espanto
Para que ele, enfim, não apronte.
Mas veja! Conversamos tanto
Que nem vi o sol se aproximando!
Cara de Nabo, adeus! Boa noite!"
CANTO VII
TRISTE LEMBRANÇA
Pensei: "Que foi isso?
Terei dormido?
Me embriagado do vinho à mesa?"
Mas um calafrio veio logo, seguido
Na minha espinha, e o regozijo
Tornou-se choro e tristeza.
"Podia ter ficado, o bom fantasma!"
E o soluço me enchia feio.
"Por que sair na pressa a outra praça?
Duvido que esse Tibbs tenha a graça
Que já havia em nosso seio.
"E se parecer comigo,
Não há de apreciar nada
Que o visite nosso amigo.
Aposto dorme bonito,
Sendo três da madrugada!
"E se o fantasma tentar
Pregar-lhe algum mal-assombro,
Sou capaz de apostar
Que os dois vão se engalfinhar
E Tibbs o deixará torto!"
Então, vendo que meu choro
Não resgataria o fantasma,
Decidi servir-me de novo
De um copo, à beira do fogo,
Dedicando-lhe estas palavras:
"Agora és findo, meu bom espírito,
Maior de minhas companhias!
Pois vá, adeus, frango a passarinho,
Adeus, adeus, pão com cafézinho,
Meu charuto, minha cigarrilha!
"Quando te vais, esta casa
Parece ainda mais triste.
Ó, meu amigo, meu chapa!
Ou a palavra mais exata
Seria amigo arrebite!?"
E de repente estanquei
Sem nem tentar outro verso.
Depois do termo que achei
(Rebite!, vejam vocês)
Tudo mais era supérfluo.
Bocejando, por fim, segui
Ao sono merecido há tanto.
E sonhei, e dormi, e dormi,
Com a mente em fadas, zumbis,
Duendes e outros encantos!
Há anos não há fantasma
Que me visite ou assombre,
Mas ainda ouço as palavras
Soando muito simpáticas:
"Cara de Nabo, adeus! Boa noite!"
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