Phantasmagoria











Esta obra recebe total autoria e crédito a seu autor, Lewis Carroll, ou Charles Lutwige Dogson. Autor de muitas obras, sendo as mais famosas Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho.  
 Todo o poema é retirado da edição da editora Darkside, contendo, portanto, sua tradução e adaptação. 
 Trouxe aqui esta obra por acreditar ser de ótima qualidade e obter ótimo humor. Espero que gostem.


 

Phantasmagoria


CANTO I

ÀS ESCURAS



         Era inverno, e às nove e meia,

             Com frio, cansado, cheguei em casa,

         Já bem depois da hora da ceia;

         Mas no escritório uma taça cheia,

             Charuto e um prato me esperavam.



         Havia um quê de estranheza ali,

             E na penumbra, um vulto pálido

         Pairava quieto bem junto a mim –

         Pensei ser uma vassoura, enfim,

             Esquecida por desleixo do criado.



         Sem demora a coisa passou

             A espirrar e a se tremer:

         Ao que atalhei "Ora, por favor!

         Faça silêncio, meu senhor!

             Estou exausto, não pode ver?"



         "Estou gripado", disse-me o ser,

             "Por ter andado a céu aberto."

         Virei-me, espantado ao perceber,

         Com os olhos que a terra há de comer,

             Um fantasminha parado perto!



         Estremeceu ante meu olhar,

             E postou-se além da cadeira.

         "Como chegou aqui?", pus-me a perguntar.

         Jamais vira ser tão singular.

             "Vamos, não se assuste dessa maneira!"



         Respondeu "Eu bem lhe diria

             Por que vim aqui, por que via,

         Mas" (e curvou-se um pouco)

         "O senhor parece tão nervoso

             Que diria ser tudo mentira.



         "E sobre estar assustado,

             Deixe que eu conte a razão:

         Fantasmas estamos fadados 

         A temer ambientes claros

             Como os homens, a escuridão."



         "Nenhuma razão justifica", eu disse,

             "Postura tão assustada:

         Fantasmas têm trânsito livre

         E aos homens jamais se permite

             Deixar-lhes a porta fechada."



         Tornou a dizer: "Alguma ressalva

             Não é atitude imprevista.

         Temia que fosses uma ameaça.

         Mas agora, ao ver tua calma,

             Posso explicar o porquê da visita.



         "As casas se classificam

             Considerando-se o tanto

         De fantasmas que nela habitam.

         (Inquilino, janelas, mobília

             Contam como peso morto).



         "Está é para um só Fantasma,

             E ao chegares, verão passado,

         Deves ter visto um espectro em casa,

         Fazendo todo o possível para

             Recebê-lo recém-chegado.



         "A isso se preza qualquer mansão

             Por mais baixa que seja a renda.

         E mesmo que um só de nós no salão

         Garanta muito menos diversão,

             Fantasmas precisam do que os atenda.



         "O espectro partiu bem rápido,

             Desde então, não tens assombro.

         E como ele se foi sem dar recado,

         Soubemos por um grande acaso

             Que alguém devia assumir o posto.



         "Na ordem para a escolha de uma vaga,

             Espectro é o primeiro a decidir.

         Depois, Fantasma, Goblin, Elfo, Fada.

         Não havendo ninguém, então a casa

             Pode ser dada a um Zumbi.



         "Entre os espectros houve o boato

             De que o seu vinho era ruim

         E que este lugar era chato.

         Então, para atender ao chamado

             Eu, um fantasma, vim."



         Retruquei: "Pois enviaram, eu entendo,

             O mais disposto ao serviço.

         Mas escolherem um fedelho

         Para assombrar um homem feito

             Não é de fato elogio".



         "Não sou tão jovem quanto

             Talvez, senhor, lhe pareça.

         Em grutas à beira-mar e em outros cantos

         Onde estive praticando meu espanto

             Adquiri boa experiência.



         "Mas como ainda não pude

             Assumir meu papel numa casa,

         Posso ter sido ansioso e rude

         E esquecido um tanto amiúde

             As Regras de Etiqueta Básica."



         Rapidamente eu já estava

             Simpatizando com o garoto:

         Tinha a cara tão pasma

         Por estar frente a um homem, numa casa

             Que não escondia o assombro.



         "Pelo menos", falei, "agora vejo

             Que fantasmas não são piada!

         Mas queira sentar-se um momento!

         Deve estar faminto, penso,

             Se, como eu, não jantou nada.



         "Mas claro, talvez não tenhas

             Nenhum interesse em comida!

         Ficarei feliz se apenas

         Vier e contar-me o que seja

             Essa tal Etiqueta esquecida."



         "Obrigado! Contarei num instante.

             E tenho fome, de fato!"

         "O que posso oferecer-lhe?" eu disse.

         "Bom, já que és tão gentil, quero antes

             Um pedacinho de pato!



         "Um só pedaço está bom! E será

             Que posso pegar mais do molho?"

         Eu, espantado, o olhava jantar

         Jamais tendo visto em ninguém esse ar

             Empalidecido, de sonho.



         Parecia que se tornava

             Mais translúcido, macilento,

         À luz oscilante e fraca

         Sob a qual recitava

             "Máximas de Comportamento".



CANTO II

SUAS CYNCO REGRAS


         "A primeira regra declara,

             E isto não é pouca coisa:

         Se a vítima estiver deitada

         Não se deve agitar, por nada,

             O dossel de forma afoita.

 


         "Com calma, que se abra a cortina          

             Por trás da qual ela dorme,

         E em pouco tempo (duvida?),

         Cheia de sono, essa vítima 

             Se encherá de medo enorme!

  


         "E o fantasma que não inicie

             A entabular a conversa

         A vítima que principie

         Mesmo que a angustie.

             É assim que um fantasma se preza.



         "Se perguntar 'Como chegou aqui?',

             (Como o senhor fez, por exemplo)

         O correto não é o que respondi,

         Mas 'Nas costas de um morcego eu vim!'

             É a resposta a contento.



         "Se após esse início, ela

             Voltar a dormir em resposta

         Chacoalhe porta e janela!

         Se não despertar, pode vê-la

             Como uma completa derrota.



         "Se em plena luz do dia,

             Em casa ou na caminhada,

         A vítima se encontrar sozinha,

         Solte-se um gemido em sintonia

             Com o tom da conversa esperada.

   


         "Mas se ela estiver com mais gente,

             A dificuldade se adensa.

         Em casos assim é prudente

         Buscar velas ou, de repente,

             Manteiga ou óleo na despensa.



         "Com isso é possível deixar

             O chão bem lisinho, encerado

         (Com sebo é fácil escorregar)

         E aí deslizar, deslizar,

             Assombrando de um pra outro lado.



         "A segunda regra conduz

             Ao tratamento mais decente:

         'Acenda rubra ou branca luz'

         (Algo a que hoje não fiz jus)

             'E arranhe portas e paredes.'"



         Cortei: "Pois faça algo nesse estilo

             E nunca mais pisa aqui!

         Não quero fogo em meu piso

         Nem quero ver um só risco

             Nas portas que há por aí."



         "A terceira regra foi escrita

              Pensando em proteger

         Os interesses da vítima:

         'Trate-a de forma benigna,

             Sem nunca a contradizer.'"



          "A regra é clara", tornei,

              "Não há quem não a entenda.

          Pena que alguns que encontrei 

          Parecem dizer 'Não sei'

              Sobre esta lei que comenta."



         Ele: "Quem sabe não foi você

             Quem errou na hospitalidade?

         Não há quem suporte ver

         Um homem falho em manter

             As normas de cordialidade.



         "Chamar fantasma de 'coisa'

             Ou atacá-lo a pauladas,

         É tudo que ele precisa 

         Para calar e ir pra briga

             Até pelo Rei chancelada!



         "A quarta proíbe a invasão

             De um lugar já assombrado:

         Quem sofrer tal condenação

         (A menos que o Rei dê perdão)

             De pronto é esquartejado.



         "Feito em pedaços pequenos,

             O fantasma mal sente dor

         (E se recompõe num momento).

         Dói tanto quanto a você, por exemplo,

             Dói o corte do editor.



         "A quinta eu direi inteira

             Pois talvez você prefira:

         Qualquer cortesão, em sua presença,

         Deve chamar o Rei de 'Alteza'.

             Não há mais que a lei infira.



         "Mas para tratá-lo, em verdade,

             Com toda a pampa e decência,

         Chame-o 'Rei Goblin', 'Majestade'

         E sempre que ele lhe fale,

             Responda 'Vossa Branquência!'



         "Temo estar ficando rouco

             Com toda esta nossa prosa.

         Então, se não for incômodo,

         Deixe-me beber um pouco

             Dessa cerveja. É gostosa?"




CANTO III

ESCARAMUÇAS



         "Você teve que andar

             Em meio a esta noite horrível?

         Fantasmas não sabem voar?

         Pensava que sim. Ou planar.

             Não diga que é impossível!"



         "Aos Reis", respondeu, "é bem fácil 

             Voar a enormes alturas.

         Mas fantasma é estatuto baixo,

         E poder se valer de asas, acho,

              Custaria grandes fortunas.



         "Espectros, claro, são ricos

             E podem comprar suas asas

         Dos Elfos. Mas não os estimo

         São muito arrogantes, e ouvimos

             O que, sobre nós, eles falam:



         "Mesmo fingindo manter 

             Postura livre de orgulho,

         Tratam-nos com um quê

         de grande soberba, talvez

             Por nos verem como entulho."



         "Parecem bastante altivos

             Para esta casa, de fato.

         Mas diga, como é possível

         Saberem ser ruim meu vinho

             E ser, este lugar, chato?"



         "O Inspetor Kobold tentou..."

            Passou a tentar me contar.

         Mas logo exclamei, "Que inspetor?

         Fiscal de fantasma, que horror!

            Por favor, queira me explicar."



         "Seu nome é Kobold", seguiu,

             "E é da ordem espectral.

         Pijama amarelo, já viu?

         Colete carmim, gorro anil.

             Nunca o encontrou no quintal?



         "Primeiro, assombrou na Alemanha

             Mas pegou uma gripe severa.

         Então, deixou a montanha,

         Tratando-se aqui, mas reclama

              De beber demais na Inglaterra.



         "Que o vinho do Porto, encorpado,

             Esquenta seus osso, é certo.

         E sendo em albergues que pode

         Encontrar desse vinho forte,

             O apelidamos de Albergto."



         Impávido, um cavalheiro,

             Ouvi o trocadilho horrível.

         E segui cortês, com respeito

         Até que ele, em exagero,

             Tornou-se provocativo.



         "É certo que não se deve

             Desperdiçar alimentos,

         Mas cozinheiros padecem

         De insipidez, é incontente.

             Onde estão os condimentos?



         "Aquele outro serviçal

             Jamais será bom criado.

         Trazer, no prato, um carvão?

         (Serviço triste que não

             Há meio de ser contestado).



         "O pato era tenro, porém

             As ervilhas estavam passadas.

         E queira lembrar-se também

         Que as torradas, da próxima vez,

             Não se deve servir geladas.



         "O pão ganhará em sabor

             Se usarem farinha melhor.

         E para beber, o senhor

         Não teria algo em que a cor

             E o sabor não lembrassem jiló?"



         Depois, com olhar analítico,

             Murmurou para si "Ora essa!"

         E voltou, novamente, a ser crítico,

         Disse não ser nada incrível

             O aposento daquela conversa.



         "Este é um cômodo triste,

             Sem primor, qualquer glória."

         "Mas devo observar", eu lhe disse,

         "Que sua arquitetura é um requinte

             Dos tempos da rainha Vitória!"



         "Tanto fez quanto tanto faz

             O período dessa construção.

         Foi projetada por um incapaz?

         Algo tão ruim eu não vi jamais

             Desde que sou uma assombração!



         "E veja este belo charuto!

             Quem sabe me dás de presente?"

         Rosnei: "Não seja absurdo!

         Quanto atrevimento. Isso tudo...

             Acaso nós somos parentes?!



         "Pois isto lhe digo: não aceito

             Jamais esta sua postura."

         "Ah!", zombou, "Estufando o peito?"

         (E nisso agarrou um cinzeiro)

             "Pois vamos partir pra loucura!"



         Com uma pontaria precisa

             Gritou "Lá vai bomba!", feliz.

         Tentei me esquivar da mobília,

         Mas ele tinha boa mira

             E o cinzeiro acertou meu nariz.



         Depois, não lembro de mais nada

             Até encontrar-me no chão.

         Com a cara já meio inchada

         Balbuciava "Manada

             É o coletivo de pavão".



         O que se passou, eu não sei

             E nunca haveria de saber.

         Quando por fim recobrei

         Os sentidos, o que encontrei,

             Foi a figura de um ser,



         Em meio à luz já bem fraca,

             Sorrindo, perdido em lembranças.

         E vi que ele declamava,

         Julgando que me interessava,

             A história de sua infância.




CANTO IV

SUA CRYAÇÃO



         "Ah, e que bela infância,

             Que dias mais empolgantes!

         Sentadas no muro, as crianças

         Fantasmas felizes com a pança

             Cheia de torradas do lanche."



         Interrompi: "Mas que nada!

             Eu conheço bem essa rima.

         Ela até já foi publicada!"

         (Então o fantasma, sem graça,

             Me disse que nunca a ouvira).



         "Não é uma canção de ninar?

             Acho que sim. Um versinho

         Em que 'três fantasmas', ao luar,

         Sentados 'cada um num pilar',

             Lambuzavam-se com os 'lanchinhos'.



         "Tenho o livro aqui, se duvida..."

             E fui procurar minha cópia.

         "Senhor", respondeu, "não precisa.

         Eu assumo, evitando a fadiga:

             Fui eu que escrevi essa história.



         "Foi publicada primeiro em semanário,

             Disse um agente que eu tinha...

         Daí, um grande editor literário

         Pensou ser acréscimo válido

             À revista que ele mantinha.



         "Meu pai era duende, senhor;

             Já minha mãe, era Fada.

         E de pronto ela pensou

         Que os filhos estariam melhor

             Se criados de formas variadas.



         "A ideia logo virou febre.

             Mamãe, assim como propôs,

         Criou-nos bem como se deve:

         Um Duende, duas Fadas, e teve

             Até mesmo um Banshee gritador.



         "Houve problemas aos montes,

             Com o Duplo e a Ninfa na escola.

         E havia o Zumbi, o Poltergeist,

         Dois Trolls que eram um disparate,

             Além de um Goblin e um Sósia...



         "(Aquilo é rapé, na estante?"

             Perguntou, com um sorriso tolo.

         "Eu gostaria de um pouco). E antes

         de mim houve um Elfo, e eu antes

             do nosso caçula, o Gnomo.



         "Um belo dia, uns espectros

             vieram, vestidos de branco:

         Fiquei a olhá-los, não muito perto,

         E era incapaz de dizer ao certo

             Por que me encantavam tanto.



         "Matutava, apenas para mim,

             Sobre sua elegância e classe

         Mamãe disse: 'Não os encare assim',

         Puxando-me para trás de si,

             Impedindo que os afrontasse.



        "E desde então meu desejo

             Foi ter nascido entre os espectros.

         Eles são como reis, hoje eu vejo,

         A nos tratar com profundo desprezo."

             (E suspirou, o olhar perdido no teto).



         "Enfim, minha vida de fantasma

             Começou entre cinco e seis anos.

         Saí a brincar fora de casa

         E desde o começo achei graça

             De todos os sustos e espantos!



         "Assombrei torres, castelos, grutas;

             Onde quer que me enviassem.

         E muitas vezes ecoei, na chuva,

         O uivo profundo das catacumbas,

             Para que humanos se arrepiassem.


         "Mas hoje em dia, gemer é brega.

             Pelo menos assim me dizem.

         A nova moda no assombro é esta:"

         E entoou, de forma funesta,

             Um guinchado dos mais horríveis.



         "Talvez", prosseguiu, "você pense

             que é fácil guinchar desse jeito.

         Se acredita nisso, tente!

         Pratiquei um ano, crente

             De que nem chegaria perto.



         "E quando se aprende a guinchar

             E o soluço vem junto, em alarde?

         É ruim demais continuar...

         Vamos, tente fazê-lo sem ar!

             Guinchar assim é uma arte.



         "Eu já tentei, lhe garanto,

             E sei que você não faria

         Mesmo praticando e tentando...

         A menos que tivesse um tanto

             De dom, mas não há garantia.



         "Shakespeare, se não me engano,

             Falou de fantasmas antigos

         A caminhar pelo Império Romano

         Vestidos com bem pouco pano.

             Deviam sentir frio, é o que digo.



         "Já comprei uma porção de roupas

             Para me passar por um Duplo.

         Fico parecido, senão em todas

         Pelo menos uma vez ou outra,

             Mas o trabalho é absurdo!



         "E a dinheirama que exige

             De pronto nos desestimula.

         Montar cenário é até mais triste;

         Demanda que a gente ou pechinche

             Ou seja dono de uma fortuna!



         "Pense numa torre mal-assombrada, 

             Com caveiras, ossadas, trapos...

         Algumas velas de chama azulada,

         Alguns truques de espelho e fumaça 

             E correntes em todo quarto.



         "E o que dizer dos preparativos: 

             Ajustar o caimento do manto,

         Conferir se as correntes têm tino?

         Para dar conta de tudo isso

             Há que ter paciência de santo.



         "Daí, cumprir os requisitos 

             do Comitê de Assombração e Espantos.

         Às vezes um fantasma é mal visto 

         Por ser francês, ou russo, ou vindo

             Da cidade, e não do campo!



         "Desaprovam sotaques, também.

             O irlandês, por exemplo, é um desses.

         E depois de fazer o que lhes convém

         Eles nos pagam dois míseros vinténs

             E nos dispensam sem pensar duas vezes!"





CANTO V

DYSCUSSÃO


         "E as vítimas não são consultadas?"

             Eu quis saber. "Que indecência!

         Como é que podem não dizer nada 

         Sobre a assombração que lhes é destinada?

             Cada um tem a sua preferência."



         O fantasma, sorrindo, fez que não.

             "Consultadas? Deus me livre!

         Isso demandaria um batalhão, 

         Atender cada capricho de chorão...

             Não haveria mais limite!"



         "Se a vítima estiver na infância,

             Claro que dará trabalho.

         Já eu, que não sou criança, 

         Mas seu anfitrião, tinha a esperança

             De dar meus palpites, meu caro!"



         "Será impossível, lamento.

             O protocolo é bastante específico:

         Chegando na casa, eu tento

         Saber se me hospedo, pois dependo

             De boas condições para isso.



         "E mesmo sem a consulta do anfitrião

             Antes que o arranjo seja imposto,

         Se o fantasma não garante assombração

         Ou, digamos, falte com educação,

              Você pode pedir que deixe o posto.



         "Se a casa não for nova demais,

             E o anfitrião, como o senhor, razoável..."

         "Espere! Que diferença faz?

         Que problema uma casa nova traz

             Que um fantasma ache intolerável?"



         "Casas recentes não nos servem muito.

             Há sempre algo que reparar.

         Mas depois de uns vinte anos, tudo

         Começa a descascar, racha o muro,

             E aí sim se pode assombrar."



         "E o que, por obséquio, 

             Queres dizer com 'reparar'?

         Não é que eu seja um néscio,

         Mas desconheço, confesso,

             Um sentido que venha a calhar."



         "Quero dizer: rachar o telhado",

             Respondeu, a gargalhar.

         "E perfurar todo o assoalho, 

         Encher os cantos de buracos

             Criando correntes de ar.



         "Agora, é mais prático quando

             Poucos furos são bastantes

         Para que o ar entre assobiando.

         Reparar isto aqui, entretanto, 

             Dará um trabalho gigante!"



         Bufei: "Pois sim. E se eu chegasse",

             Tentei sorrir, sem sucesso,

         "Apenas um pouco mais tarde,

         Teria que admirar essa arte. 

             Gastou o dia todo no processo?"



         "Como? Não! Embora pudesse

             Ter feito uma revisão...

         Mas proíbem que um fantasma comece

         A trabalhar antes que se converse

             Com o morador em questão.



         "Como você demorou a chegar

             Eu deveria ter ido embora.

         Mas lá fora era frio de amargar 

         E pedi ao prefeito para esperar

            Aqui mesmo por mais uma hora."



         "Mas que prefeito?", eu quis saber.

             E o fantasma, como quem reclama,

         Retrucou sem me responder

         "Se não o conhece, não deve ter

             Jamais jantado e ido pra cama!



         "Ele costuma sentar em cima

             De quem, à noite, come demais.

         Faz com que paguem a glutonia 

         E o peso todo lhes dá azia."

             (Falei: "Que assombração eficaz!")



         "E aqueles que jantam um prato cheio

             (Com ovos, lagosta, galinha,

         Pato assado, queijo e bacon),

         Posso afirmar, sem nenhum receio:

             Terão uma azia infinda.



         "É tão gordo, tão imenso,

             Que serve bem à função.

         Por esse motivo, penso,

         Que o chamávamos, há um tempo,

             Prefeito e Coligação!



         "No dia em que foi eleito,

             Sei que a mim queriam

         Votar para seu prefeito.

         Mas todos tiveram medo

             Ao ver sua euforia.



         "Assim que venceu, orgulhoso,

             Correu a contar ao Rei.

         Mas sendo o exato oposto

         De magro, foi dificultoso

             Correr duas milhas, ou três.



         "E a fim de recompená-lo 

             Por correr estrada afora,

         O Rei, também como escárnio,

         Pensou que podia armá-lo 

             Cavaleiro naquela hora."



         "Ora, mas que ousadia!"

             (Falei, cheio de desgosto)

         "Fazê-lo só por zombaria!

         Um homem que zomba um dia,

             No outro, sonega imposto."



         "Um homem", tornou, "não é o Rei".

             Ainda insisti, já tonto,

         Fazendo o melhor que sei,

         Mas o fantasma, risonho,

             Não concordou com meu ponto.



         Por fim, cansado e inquieto,

             Parei a fumar um pouco.

         "Seu intento", ele disse, "é honesto,

         Mas este seu argumento...

             Deseja tentar de novo?"



         Reagindo a sua investida

             Eu argumentei de pronto.

         "Só há uma certeza na vida,

         Na qual nem descrente duvida:

             A morte alcança a todos."



         "É verdade", ele disse, "é verdade..."   

             Escutei com atenção –           

         "A morte, mais cedo ou mais tarde

         A todos alcança. É verdade.

             Mas a sorte não."





CANTO VI

DERROTA



         Como o esforço contente

             De escalar monte novo,

         Mas que a cada passo pressente

         Arrefecer seu deleite

             E aumentar seu desgosto



         Que tenho subido um pouco,

             Jamais voltará atrás,

         E a todo instante se vê de novo

         Vislumbrando o céu sobre o topo

             Onde o bom descanso jaz;



         Que escala até que lhe faltem

             As forças para seguir;

         Ao passo em que o fôlego acabe

         Se enche de ira e desgaste

             Mas não deixa de subir;



         E que, alcançando o topo

             Que encima o monte tomado,

         Com passo vacilante e torto

         Receba do vento um soco

             Que o larga a solo tombado;



         Sentindo-se em queda livre,

             De novo encosta abaixo,

         Sujeitado ao declive,

         Enfim tomba em seu limite: 

             Encontra-se estatelado.



         Assim eu, que tentando

             Persuadir a aparição

         Descobri ser tarefa e tanto

         Convencer um não humano,

             Continuei na missão.



         Pensando atingir sucesso

             No fim daquele debate

         Lutei por provar-me certo

         Via silogismo esperto

             Com tudo que é verdade.



         Compus todas as sentenças

             Dizendo "portanto", "destarte"

         E logo me encontrei presa

         De frases sem qualquer presença,

             Sem chegar a qualquer parte.



         E ele retrucou: "Que besteira.

             Desista de se esforçar.

         Que tal descansar à beira

         De sua pomposa lareira?

             Pare de se envergonhar!



         "Tens o mesmo temperamento

             De alguém que eu conhecia

         Em fúria, um dia, o sujeito

         Bateu tanto no próprio peito

             Que por pouco não morria."



         "Que coisa!" falei, e ele riu,

             Com severas diatribes.

         "Que coisa! Que coisa!, viu?

         Mas é como é, tal se diz.

             Assim como seu nome é Tibbs!"



         "Mas esse não é o meu nome."

             "Não é!?", perguntou, abalado.

         Confirmei: "Não sou Tibbs, bom homem.

         Em verdade, sou Tibbet, meu nobre."

             "CÉUS, ASSOMBREI O HOMEM ERRADO!"



         Nisso, golpeou a mesa,

             Chacoalhando taça e prato.

         "Por que não me avisou dessa

         Assim que cheguei, ora essa!?

             Seu grandessíssimo asno!



         "Fazer-me andar noite afora,

             Na chuva, morrendo de fome,

         Só para jogar papo fora

         (Terei que repeti-lo, agora);

             Que perda de tempo enorme!"



         "Me poupe!", ele disse quando

             Tentei lhe pedir desculpa.

         "Com pouco fôlego eu ando,

         E nem me agrada este canto

             Ou sua cara de mula.



         "Deixar-me ocupado e não

             Me avisar de partida

         Que esta não era a mansão!

         Estúpido, bobalhão!

             Saia já da minha vista!"



         "Ora, é fácil demais ir culpando

             A mim, que de nada sabia!

         Por que não chegou perguntando

         Meu nome, seu fantasma estranho?"

             Falei, cheio de euforia.



         "É certo que lhe aborrece

             Andar tanta légua a pé.

         Mas a culpa é minha, parece?"

         "De fato, eu talvez pudesse

             Dizer-lhe, bem, que não é.



         "E para ser verdadeiro,

             O senhor foi bem generoso.

         Perdoe meu destempero.

         Mas esse tipo de coisa

             Deixa a gente rancoroso.



         "Foi culpa minha, de fato.

             Desejo-lhe boa noite,

         Meu velho Cara de Nabo!"

         Eu quase caio em seu papo,

             Mas só desejei que se fosse.



         "Boa noite, bom nababo, vou à estrada!

             Assim que me for, eu suponho,

         Mandarão para ter a casa assombrada

         Um espírito menor, duende ou fada

             Que atormente e lhe tire o sono.



         "Seja rígido, não aceite

             Que se perca o tal decoro.

         E se ele mostrar os dentes

         Em desafio, não deixe

             Que lhe faça desaforo!



         "Diga apenas: 'Veja bem,

             Talvez não lhe esteja claro,

         Mas fazendo o que lhe convém

         Sairá daqui sem um vintém

              E debaixo de um sarrafo!'



         "E é assim que se trata um espanto

             Para que ele, enfim, não apronte.

         Mas veja! Conversamos tanto

         Que nem vi o sol se aproximando!

             Cara de Nabo, adeus! Boa noite!"





CANTO VII

TRISTE LEMBRANÇA 



         Pensei: "Que foi isso?

         Terei dormido?

             Me embriagado do vinho à mesa?"

         Mas um calafrio veio logo, seguido

         Na minha espinha, e o regozijo

             Tornou-se choro e tristeza.



         "Podia ter ficado, o bom fantasma!"

             E o soluço me enchia feio.

         "Por que sair na pressa a outra praça?

         Duvido que esse Tibbs tenha a graça

             Que já havia em nosso seio.



         "E se parecer comigo,

             Não há de apreciar nada

         Que o visite nosso amigo.

         Aposto dorme bonito,

             Sendo três da madrugada!



         "E se o fantasma tentar

             Pregar-lhe algum mal-assombro, 

         Sou capaz de apostar

         Que os dois vão se engalfinhar 

             E Tibbs o deixará torto!"



         Então, vendo que meu choro

             Não resgataria o fantasma,

         Decidi servir-me de novo

         De um copo, à beira do fogo,

             Dedicando-lhe estas palavras:



         "Agora és findo, meu bom espírito,

             Maior de minhas companhias!

         Pois vá, adeus, frango a passarinho,

         Adeus, adeus, pão com cafézinho,

             Meu charuto, minha cigarrilha!



         "Quando te vais, esta casa

             Parece ainda mais triste.

         Ó, meu amigo, meu chapa!

         Ou a palavra mais exata

             Seria amigo arrebite!?"



         E de repente estanquei 

             Sem nem tentar outro verso.

         Depois do termo que achei

         (Rebite!, vejam vocês)

             Tudo mais era supérfluo.



         Bocejando, por fim, segui

             Ao sono merecido há tanto.

         E sonhei, e dormi, e dormi,

         Com a mente em fadas, zumbis,

             Duendes e outros encantos!



         Há anos não há fantasma

             Que me visite ou assombre,

         Mas ainda ouço as palavras

         Soando muito simpáticas:

             "Cara de Nabo, adeus! Boa noite!"






    Phantasmagoria traz críticas rigorosas, embora pouco visíveis.
    Críticas à diferença de classes sociais; ao capitalismo, que em 1869 — data da primeira publicação da obra — já havia mostrado bem suas facetas com a Revolução Industrial, um século antes, e a Segunda Revolução Industrial, tendo início em 1850.
    Crítica à exploração de mão de obra, no trecho:

         "E depois de fazer o que lhes convém
           Eles nos pagam dois míseros vinténs
               E nos dispensam sem pensar duas vezes!"


    Pouco antes, também uma crítica ao preconceito inglês quanto aos irlandeses, que a essa altura já havia sido cultivado há séculos.
    Enquanto em suas obras nonsenses Lewis Carroll aborda reflexões sobre comportamentos e hábitos humanos questionáveis, em Phantasmagoria — ou Fantasmagoria, na forma "abrasileirada" — ele traz diversas críticas sobre acontecimentos de sua época, com um certo humor sempre presente. 
    Apesar de algumas características questionáveis quanto à sua pessoa, quando se fala de suas obras, Lewis Carroll nunca erra.







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