Os Dois Morrem no Final (mas em nossos corações, são imortais)

 Olá,

aqui quem fala é a Central da Morte.

Sinto muito em lhe informar que em algum momento

ao longo das próximas 24 horas

você terá um encontro prematuro com a morte.

Em nome de toda a equipe da 

Central da Morte, sentimos muito a sua perda.







     Ler 400 páginas em dois dias é para poucos. 


   Mesmo que você ame ler, mesmo que você seja viciade (acredito que me encaixe aqui), é difícil você ter: tempo (você deve estudar, trabalhar, ou algo que ocupe minimamente sua vida para que não se encaixe no que eu chamo de Grupo de Pessoas que Não Se Esforçam Minimamente Para Pensar); interesse (nem todas as obras são perfeitas, ou até mesmo boas o suficiente para que te prendam para que você leia pelo menos 100 páginas por dia); e/ou disposição (esse acima de todos. Você pode estar cansade, ou até mesmo deprimide, e não ter forças para abrir o livro, por mais incrível que seja). 


    Dado esse fato, posso dizer que ter lido 200 páginas, embora Adam Silvera tenha uma escrita dinâmica e envolvente, por dia é realmente incomum (ao menos para minha pessoa; 100 é meu padrão). Mas isso já era esperado de um livro assim.


    Foi mais avassalador do que pensei que seria. E, não, eu não fiquei torcendo para que eles fossem a exceção à regra, e que no final não morressem porcaria nenhuma. E também não é como se eu chorasse com qualquer morte que passa no jornal.


    Mas como nós bem sabemos, essas mortes não foram assim. Elas doeram da mesma forma que doeriam se não tivéssemos sido avisados. Ou, melhor, como diria Mateo, alertados; pois quando te avisam de algo, é para que você se cuide, se previna de alguma forma. A morte não é assim.


    Então, quando a Central ligou para Mateo, e, logo após, para Rufus, nós já sabíamos o fim.

    Mas não deixamos de, lá no fundo, sentir aquele tremor, e temer por suas vidas.





[...] "aviso" é uma palavra forte demais, já que avisos em geral sugerem algo que pode ser evitado, como um carro buzinando para um pedestre que atravessou a rua no sinal vermelho, dando a ele uma chance de se afastar; isso é mais como um alerta.





Mateo nunca viveu de verdade, e com isso eu me identifico. Sério. Além de sentir que morrerei cedo, realmente acredito que só viverei direito em meu último dia (quer dizer, se eu tivesse um alerta desses).


    Rufus se encontra em profundo vazio, e isso eu também entendo. E fico feliz que, ao ser Último Amigo de Mateo, ele tenha se voltado à sua melhor versão. 


    Uma coisa que não deixo de pensar é nas... coincidências desse livro. O quanto os personagens se conectam e entrelaçam, na verdade. Uma garota que fez o grafite do app Último Amigo, que levou Rufus a baixar o app; um cara aleatório puto porque não pode mais malhar, mas que também gera caos na história; uma gangue sem nome que resolve sair correndo por aí; um cara que não tem calçados. 


    Tudo se entrelaça de tantas formas improváveis, em um único dia, que parece algo mágico.


    Eu nem preciso dizer que não chorei apenas no final da obra. Não, o caos começou logo no início. Ver uma pessoa em crise porque não aproveitou a vida e outra que está perdido dentro de si mesmo, é um bom motivo para sofrer. Pessoas jovens que "não deveriam morrer ainda". A improbabilidade de pessoas assim morrerem. E, mesmo assim, lá se vão elas.


    Não apenas a história, não apenas o final. Mas os detalhes. As coisas especiais. Uma música que o pai cantava para a mãe, um Sistema Solar de Plutão mais especial que o comum, os diferentes modos de família, um pássaro que saiu de seu lar, um passeio de bicicleta.


    As coisas pequenas e seus grandes valores. Por quantas vezes você, que pode nem se considerar alguém sensível (e de fato não o precisa ser para fazer isso), se pega admirando um pôr do Sol, ou uma Noite Estrelada? E, por mais que eu também odeie esse negócio de "o valor das pequenas coisas é o que traz felicidade", realmente nos deixa confortáveis e nos faz sentir alguma coisa. Mesmo que não os vivamos (eu nunca poderia sair por aí na madrugada, andando pelo centro, ou andar numa praia sob a Lua), vemos o valor que isso tem. O quanto nos faz sentir.


    O quanto uma refeição em um lugar de visita frequente nos faz sentir. O quanto uma música nos faz sentir. Fotos. Passeios. Histórias. Essas pequenas coisas que estão nesse mundo incrível.





A capa. Ah, a capa. O tom de azul, geralmente associado à tristeza. A silhueta de uma caveira ao fundo. Uma foice em suas sombras. Tudo isso, que afirma ainda mais que, sim, o título é real. Afinal, por que um título mentiria?


    Adam até tem o que dizer sobre isso. Sobre ele ter "estragado a história" com o título (o que, sinceramente, eu acho que ninguém realmente pensou, não se ela leu essa coisa maravilhosa).




Desde que anunciei o título do livro, muitas pessoas me perguntam por que eu decidi estragar o final. Mas será que estraguei mesmo? Quer dizer, acho que sim, pelo menos em parte. Mas o final nunca foi o propósito do livro.

 




    Simplesmente, Os Dois Morrem no Final não é uma história sobre a morte, embora a obra se trate sobre a mortalidade. É uma história sobre a vida. A vida em um dia.


     E que vida.


     A maior tristeza, acho, é pensar que eles não puderam continuar uma história. Que, se tivessem se conhecido antes, poderiam ter se apaixonado antes e ter construído algo. Que eles não vão poder viver meses, anos juntos, e muito menos ter os famosos clichês.


    A maior felicidade é que não houve clichês. Houve duas pessoas que se ajudavam a desabafar e se sentirem melhores, em busca de um Dia Final realmente inesquecível (não que eles tivessem tempo para lembrar ou não depois).





 Viver é a coisa mais rara do mundo.

maioria das pessoas apenas existe.

– Oscar Wilde





Essa é uma história sobre viver. Pois existir nós já ganhamos em um belo prato na bandeja. É sobre não se manter sempre seguro, pois a vida não está aí, no seu quarto, onde você se esconde do resto do mundo.





 Um navio está seguro no porto, mas não é 

para isso que os navios foram criados.

– John A. Shedd





Eles tentaram. Até o último minuto. Mas, HA, a Morte é a única que nunca ficará desempregada. Além do emprego render, ela dá conta do recado.


    E pessoas incríveis sempre vão morrer.





Sobre a questão de se a Central da Morte seria útil ou não... Eu realmente acredito que sim. O que melhor para se fazer na vida do que saber que é seu último dia de vida, e poder mandar todo mundo tomar no cu pelas merdas que já fizeram com você? Do que realmente ser livre, ao menos uma vez? É algo muito útil e que eu apoio. Entendo (mentira, só quero soar politicamente correto) o argumento de que não gostaria de viver sabendo que a qualquer momento poderiam te ligar dizendo que é seu último dia de vida. Mas a morte, sem necessariamente te alertar, é assim. Ou vai me dizer que você fica o tempo todo pensando que pode morrer a qualquer momento? Porque você pode.


    Mas eu me esqueço que hoje mesmo as pessoas já tratam a morte como um tabu. Teste. Pergunte a qualquer pessoa se ela também acha bizarro o fato de que vamos morrer, a qualquer momento e de qualquer forma. Ela provavelmente dirá "Eu não", não em um sentido de "Eu já sei disso, vou ficar pensando para quê?", mas sim como "Que horror! Quem fica pensando na morte?"


    Um livro sobre a mortalidade é o que as pessoas precisam.


    Um quadro sobre a mortalidade.


    Uma música.


    Um filme.


    Filmes acimas de tudo, pois mesmo que a pessoa (no caso, a maioria dos seres humanos na Terra) não seja ligada à arte, vai assistir a filmes. E vai (espero) parar para pensar sobre a morte, ao menos um pouco. Pois precisamos.


    Mas o objetivo da história não é, de fato, falar sobre a importância da morte.


 E sim sobre a importância da vida.






imagem, editada, de Plutão, capturada pela sonda New Horizons; fonte: https://www.google.com/amp/s/revistagalileu.globo.com/amp/Ciencia/Espaco/noticia/2016/07/10-imagens-espetaculares-de-plutao-feitas-pela-sonda-new-horizons.html




Se algo fosse acontecer, eu gostaria de saber para poder dizer te amo e obrigado e desculpa para as pessoas certas.





Então, sim, talvez o título tenha estragado a experiência de leitura para algumas pessoas. Porém, tenho um spoiler ainda maior para todo mundo: todos vamos morrer no final. Cada um de nós. Porém, mais uma vez, o jeito como morremos ou o fato de que vamos morrer não é o que importa. Não posso responder a essa próxima pergunta, mas espero que ela fique em sua mente todos os dias: como nós vivemos?

  




 Observar as anotações do Adam foi muito importante para entender mais sobre o real objetivo da obra. Mas eu realmente gostaria de saber como ele selecionou as músicas...


 

Playlist

 


 Take This Waltz – Leonard Cohen


 Come What May – autoria não mencionada


 One Song – Rent (musical)


 Just The Way You Are – Billy Joel


 Can't Fight This Feeling – autoria não mencionada


 Vienna – Billy Joel


 Tomorrow Tomorrow – Elliott Smith


 Born to Run – Bruce Springsteen


 A Fond Farewell – Elliott Smith


 Because the Night – Patti Smith


 Try a Little Tenderness – Otis Redding


 Elastic Heart – Sia


 (e, claro, deixei as melhores para o final)


 American Pie – Don Mc Lean


 Your Song – Elton John





This'll be the day that i die...

 


 

 I hope you don't mind, i hope you don't mind, that i put down in words... how wonderful life is while you're in the world

 




livro Os Dois Morrem no Final, tirado em um ângulo muito desconfortável para minha pessoa e coluna, mas a busca de 10 minutos pela foto perfeita valeu a pena 


 

 ❝ Ele sorri como se soubesse o que está prestes a acontecer. E ele não está errado.


 Eu beijo o garoto que me trouxe à vida no dia em que vamos morrer. ❞



 


Comentários

  1. não acho que ele tenha estragado o final com o título, mas sim deixado mais emocionante. Mesmo com aquela esperança de que eles não morressem no final, era óbvio que isso iria acontecer e isso não estraga em nenhum momento a história do livro, não é chato porque você já sabe o final mas sim inebriante, pois é muito bom mesmo e mostra realmente que a gente não vive, só existe (pelo menos eu).

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    1. Também não acho, e justamente por isso coloquei a parte do livro em que o autor deixa claro sua opinião de que embora muitas pessoas achem que o título estraga, a intenção dele não é falar sobre a morte dos meninos, e sim sobre suas vidas.

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